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Ahmad Ashrafi
November 8, 2026

O que é um trust? Guia para famílias brasileiras

O que é um trust, como a lei brasileira passou a tratá-lo e os erros que mais custam às famílias com ativos nos EUA.

O que é um trust? Guia para famílias brasileiras

Um trust é um acordo jurídico em que uma pessoa entrega bens a outra para que ela os administre em benefício de terceiros, sob regras escritas de antemão. Quem cria o trust deixa de ser, no todo ou em parte, o dono direto; quem o administra responde aos beneficiários; e os beneficiários recebem de acordo com o documento, não com o que um juiz decidir depois.

Para uma família brasileira com ativos nos Estados Unidos, o trust é uma das ferramentas mais usadas para organizar a sucessão. Também é uma das mais mal compreendidas. Não reduz impostos por si só, o direito brasileiro não tem uma figura equivalente e, mal montado, pode criar problemas que antes não existiam.

O que é um trust e como funciona?

Um trust tem três papéis, e uma mesma pessoa pode ocupar mais de um.

  • Settlor ou grantor (instituidor): a pessoa que cria o trust e coloca os bens nele.
  • Trustee (administrador fiduciário): a pessoa ou empresa que administra os bens e é obrigada por lei a agir no interesse dos beneficiários.
  • Beneficiários: quem recebe os bens ou seus rendimentos, hoje ou no futuro.

O documento que o cria, o trust agreement, define quem recebe o quê, quando e em quais condições. Por exemplo: os filhos recebem o aluguel de um imóvel até os 30 anos e o imóvel aos 35. Essas regras continuam valendo quando o fundador não está mais.

Um trust só cobre os bens que realmente são transferidos a ele, o que se chama "fundear" o trust. Os bens que ficam de fora podem acabar em probate, o inventário judicial nos EUA, que é público, lento e caro.

Trust revogável ou irrevogável: a diferença que importa

Um trust revogável é aquele que o criador pode alterar ou cancelar enquanto vive. Um trust irrevogável, em princípio, não pode ser alterado depois de assinado. Essa diferença decide quase todo o resto.

Trust revogávelTrust irrevogável
Controle do fundadorTotal: pode alterá-lo ou cancelá-loLimitado: abre mão do controle
Evita o probateSim, para os bens transferidosSim, para os bens transferidos
Imposto sobre herança dos EUAOs bens continuam contando na herança do fundadorPode tirá-los da herança, conforme o desenho
Proteção contra credores do fundadorNão, enquanto ele vivePode oferecer, conforme o desenho e o estado
FlexibilidadeAltaBaixa

O erro mais comum é achar que um trust revogável reduz impostos. A lei federal americana inclui na herança os bens que uma pessoa transferiu mantendo o poder de revogar ou alterar a transferência (seção 2038 do Internal Revenue Code). A Ordem dos Advogados da Flórida diz isso sem rodeios: o trust revogável entra no espólio tributável no momento da morte.

Trust e direito brasileiro: não são a mesma coisa

O trust nasce do direito anglo-saxão e é regido por leis estaduais; na Flórida, pelo Florida Trust Code, no capítulo 736 dos seus estatutos. O direito civil brasileiro não tem uma figura equivalente. O que mudou é que, desde a Lei 14.754/2023, o Brasil passou a dizer como um trust é tributado.

Nos EUANo Brasil (Lei 14.754/2023)
Quem é o dono dos bensO trustee administra em favor dos beneficiáriosOs bens continuam sob titularidade do instituidor
RendimentosDependem do tipo de trustSão tributados como se fossem do titular dos bens
Quando os bens passam ao beneficiárioConforme o trust agreementNa distribuição ou na morte do instituidor, o que ocorrer primeiro
Natureza da transferênciaRegras do estate tax e do gift taxDoação, se em vida; herança, se após a morte

Na prática, um trust americano não tira os bens do radar da Receita Federal: para o Imposto de Renda brasileiro, eles continuam sendo do instituidor até passarem ao beneficiário.

Quando um trust é "estrangeiro" para os EUA?

Para o IRS, um trust é americano só se passar em dois testes ao mesmo tempo: um tribunal dos EUA pode supervisionar sua administração, e uma ou mais pessoas americanas controlam todas as suas decisões importantes. Se falhar em qualquer um, é um trust estrangeiro.

Isso importa muito para uma família brasileira. Se o fundador ou um familiar que mora em São Paulo ou em Belo Horizonte tem poder sobre decisões-chave, o trust pode ser estrangeiro mesmo que o trustee seja um banco de Miami. E um trust estrangeiro tem regras de impostos e de declaração muito diferentes.

Se um filho mora nos EUA e recebe distribuições de um trust estrangeiro, precisa declará-las ao IRS no Formulário 3520. A multa inicial por não declarar é o maior valor entre US$ 10.000 e 35% do que foi recebido.

O que muda para uma família brasileira

A família brasileira vive entre dois sistemas: o do Brasil e o dos EUA, onde estão os ativos. O trust precisa funcionar nos dois.

  • Imposto sobre herança dos EUA. Para quem não é cidadão nem residente americano, a obrigação de declarar surge quando os ativos situados nos EUA passam de US$ 60.000 na morte. Isso inclui imóveis e ações de empresas americanas. Explicamos em detalhe no guia sobre imposto sobre herança nos EUA para brasileiros.
  • Imposto de Renda. Pela Lei 14.754/2023, os bens do trust continuam sob titularidade do instituidor, e os rendimentos são tributados como se fossem dele.
  • ITCMD. A Lei Complementar 227/2026 prevê que o ITCMD incida quando o bem é transferido ao beneficiário ou na morte do instituidor, não na criação do trust. A cobrança ainda depende de lei de cada estado.
  • Transparência fiscal. As autoridades fiscais da região trocam cada vez mais informações financeiras com outros países. Segundo o Fórum Global da OCDE, os países latino-americanos identificaram mais de 576 milhões de euros em arrecadação adicional em 2025 graças a essa troca. Um trust não é lugar para esconder nada.
  • A família espalhada. Filhos que estudam em Boston, moram em Lisboa ou voltam para São Paulo. Cada residência acrescenta uma camada de regras.

Por isso a ordem importa. Primeiro se define onde mora cada membro da família e quais ativos estão em cada país. Depois se escolhe a estrutura. Em muitos casos, o trust convive com uma LLC que detém o imóvel; explicamos isso em como abrir uma LLC e uma conta nos EUA.

Os riscos de um trust mal montado

Um trust não elimina o risco. Ele o desloca. Estes são os erros que mais vemos.

  • Trust vazio. O documento foi assinado, mas o imóvel em Miami ou a conta de investimentos continuam no nome do fundador. Na morte, esses bens vão para o probate do mesmo jeito.
  • Revogável achando que reduz impostos. A família acha que protegeu a herança, mas os bens continuam contando para o imposto americano.
  • Trust estrangeiro sem saber. Um familiar no Brasil mantém o controle e o trust passa a ser estrangeiro, com declarações e tributação que ninguém previu.
  • Conflito com as regras brasileiras. O trust funciona nos EUA, mas a família esquece que no Brasil os bens continuam sendo do instituidor, e paga duas vezes ou fica irregular.
  • Trustee errado. Um amigo de confiança sem experiência, ou uma instituição que cobra caro e não conhece a família. O trustee é quem manda quando o fundador não está mais.
  • Regras sem conversa. O documento reparte os bens, mas ninguém conversou com os filhos. O trust vira fonte de conflito em vez de evitá-lo.
Primeiro se entende o que pode dar errado. Depois se escolhe a estrutura.

O que aprendemos

Eu tinha pouco mais de vinte anos quando conheci uma família que tinha construído, em duas gerações, uma das empresas mais rentáveis do seu país. Tudo estava no nome da empresa, sem blindagem jurídica nem tributária, sem protocolos claros de sucessão. Quando o fundador morreu de repente, a esposa e os filhos herdaram não só ativos, mas conflitos. Não foi por um mau investimento. Foi por uma má estrutura.

Naquele dia entendi que ter um grande negócio não é ter um grande patrimônio. Um patrimônio sem estrutura é como uma casa sem alicerces.

O que aprendemos na Infinity⁹ acompanhando mais de 75 famílias:

  • A estrutura é o primeiro ativo. Quando uma família recebe liquidez, a primeira coisa que precisa existir é a estrutura jurídica: uma holding em uma jurisdição séria, as LLCs operacionais, a assessoria tributária cruzada entre o Brasil e os EUA e um plano sucessório claro. Os ativos vêm depois, sobre essa base.
  • Investir antes de estruturar sai caro. É comprar uma Ferrari e descobrir depois que não tem garagem. O atrito tributário de uma estrutura mal desenhada aparece cinco anos depois, quando já é tarde.
  • Um trust não substitui a educação. Já vi famílias deixarem para os filhos um trust e nenhum preparo. O documento protege os bens; não prepara quem vai recebê-los.
  • As regras se combinam antes de serem necessárias. Um trust funciona melhor quando reflete acordos que a família já conversou, não quando tenta impô-los depois.

Perguntas frequentes

Existe trust no Brasil?

O direito civil brasileiro não tem uma figura equivalente ao trust. Mas, desde a Lei 14.754/2023, a lei brasileira define como um trust no exterior é tributado para quem mora no Brasil.

Para que serve um living trust?

Um living trust, ou trust em vida, serve para administrar bens enquanto o fundador vive e reparti-los na morte sem passar pelo probate. Só cobre os bens que foram efetivamente transferidos a ele.

Um trust evita o imposto sobre herança dos EUA?

Um trust revogável não evita, porque os bens continuam contando na herança do fundador. Um trust irrevogável bem desenhado pode mudar esse resultado, mas exige abrir mão do controle e assessoria especializada.

O que é um trustee?

O trustee é a pessoa ou empresa que administra os bens do trust em benefício dos beneficiários. Tem deveres legais de lealdade e cuidado, e é quem toma as decisões quando o fundador não pode mais.

Quando o trust paga ITCMD?

Pela Lei Complementar 227/2026, na transferência do bem ao beneficiário ou na morte do instituidor, não na criação do trust. A cobrança depende de lei de cada estado.

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Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação jurídica, tributária ou de investimento, nem oferta de valores mobiliários. As regras do ITCMD dependem de leis estaduais ainda em formação. Cada família deve consultar seus próprios advogados e contadores no Brasil e nos EUA.

Fontes

WRITTEN BY

Ahmad Ashrafi is Founder and CEO of Infinity⁹ in Miami and Chief Investment Officer of A9 Family Office. Since 2012 he has managed capital for Latin American families, today more than 75 families across 10 countries. He studied at Babson College, with specializations at Harvard in family office wealth management and at MIT in real estate investment, and is a member of the Forbes Finance Council.

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