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Ahmad Ashrafi
October 23, 2026

O que é um family office?

Um guia para famílias brasileiras: o que é, quando faz sentido e os riscos que pouca gente menciona.

O que é um family office?

Um family office é uma estrutura privada que administra o patrimônio de uma família como se administra uma empresa: com estratégia, governança, relatórios e uma equipe que responde à família, não a um banco.

Não é um produto nem uma conta. É a forma como a família decide organizar seus investimentos, o planejamento jurídico e tributário, a sucessão e muitas vezes a filantropia, sob o mesmo teto e com uma só visão.

A diferença em relação a um assessor financeiro tradicional é fundamental. O assessor costuma olhar uma parte do dinheiro. O family office olha o patrimônio inteiro, todas as gerações e todas as jurisdições onde a família tem ativos.

Single family office, multi-family office e outros modelos

Existem três modelos principais, e a diferença está em quantas famílias a estrutura atende e em quem paga por ela.

  • Single family office (SFO): trabalha para uma única família. Controle total e equipe própria, com o maior custo fixo.
  • Multi-family office (MFO): várias famílias dividem a estrutura. Acesso a uma equipe profissional sem carregar o custo inteiro sozinho.
  • Family office virtual: a família coordena especialistas externos. Mais flexível e leve, mas depende de alguém que coordene bem.

Muitas famílias brasileiras começam com um modelo híbrido: um familiar ou uma pessoa de confiança coordena, e os especialistas (advogados, contadores, gestores) são contratados de fora.

Quando uma família precisa de um family office?

A resposta curta: quando a complexidade do patrimônio supera a capacidade da família de coordená-lo bem. O valor importa, mas a complexidade importa mais.

Como referência, o mercado costuma colocar o ponto de partida de um single family office entre US$ 100 milhões e US$ 250 milhões em ativos investíveis, porque manter um custa de US$ 1 milhão a US$ 3 milhões por ano. Abaixo disso, um multi-family office costuma fazer mais sentido, com taxas típicas de 0,5% a 1,5% dos ativos ao ano.

Sinais de que a família já precisa de um:

  • Ativos em vários países, com advogados e contadores que não conversam entre si.
  • A venda de uma empresa ou outro evento de liquidez que transformou um negócio em dinheiro que precisa ser investido.
  • Uma segunda ou terceira geração entrando nas decisões sem regras claras.
  • Ninguém na família tem a visão completa de tudo o que ela possui.

Sinais de que ainda é cedo: o patrimônio está concentrado em uma única empresa operacional, ou a família não está alinhada em valores e visão. Nesse caso, o family office acrescenta custo antes de acrescentar valor.

Os riscos que pouca gente menciona

Um family office não elimina o risco. Ele o organiza. E, se for mal montado, cria riscos novos que não existiam antes.

  • Governança sem regras. Sem um protocolo familiar claro, decisões de investimento viram decisões emocionais, e os conflitos entre irmãos ou gerações acabam na carteira.
  • Concentração disfarçada. Muitas famílias criam a estrutura, mas mantêm a maior parte do patrimônio na empresa original, no Brasil e em reais. A estrutura mudou; o risco não.
  • Sucessão despreparada. O fundador costuma ser quem entende tudo. Se ninguém mais está preparado, a estrutura fica órfã no dia em que ele não estiver.
  • Custos que comem o retorno. Equipe, escritório, sistemas, advogados e gestores externos somam rápido. Um family office caro com uma carteira medíocre destrói valor em silêncio.
  • Exposição jurídica e tributária mal mapeada. Ter ativos em vários países sem entender como cada um é tributado pode custar mais do que qualquer investimento ruim.
Primeiro você entende o que pode dar errado. Depois fala de retorno.

O caso brasileiro: por que parte do patrimônio vai para os Estados Unidos

Para uma família brasileira, o family office costuma ter uma tarefa que uma família americana não tem: proteger o patrimônio do risco do próprio país.

  • Risco de câmbio. O real já perdeu boa parte do seu valor contra o dólar em diferentes ciclos. Quem tem todo o patrimônio em reais carrega esse risco inteiro.
  • Ativos em dólar. Ter parte do patrimônio em ativos reais denominados em dólar diversifica o risco da moeda local. Explicamos as opções em como investir em dólar a partir do Brasil.
  • Segurança jurídica. Contratos que se cumprem e tribunais previsíveis.
  • Continuidade entre gerações. Filhos que estudam ou moram fora e vão herdar ativos em mais de um país.

O risco que a maioria das famílias ignora é o imposto sobre herança dos EUA (estate tax). Quem não é cidadão nem residente americano tem uma isenção de apenas US$ 60.000 sobre ativos situados nos EUA, incluindo imóveis, e o excedente pode ser tributado a alíquotas de até 40%. Por isso, a forma de deter o ativo importa tanto quanto o ativo. Detalhamos em imposto sobre herança nos EUA para brasileiros.

Do lado brasileiro, também mudou muita coisa. A Lei 14.754/2023 passou a tributar a renda de aplicações financeiras e de entidades controladas no exterior a 15%, inclusive lucros de offshores mesmo sem distribuição, e mudou o tratamento de trusts. A Lei Complementar 227/2026 reformou o ITCMD e prevê a cobrança sobre bens no exterior a partir das regras estaduais, com efeitos previstos a partir de 2027. Some a isso a retenção na venda de imóveis nos EUA (FIRPTA) e a declaração de Capitais Brasileiros no Exterior ao Banco Central. Toda família precisa mapear isso com advogados e contadores nos dois países antes de mover capital. Tratamos o tema no nosso guia para investidores de fora dos EUA.

Como fazemos na A9 Family Office

Não escrevo isto a partir da teoria. Sou Chief Investment Officer da A9 Family Office, o family office da minha própria família, e administro capital desde 2012.

Criei a A9 porque precisava de uma estrutura organizada para colocar o dinheiro da minha família. Ter patrimônio não basta. Como tudo na vida, ele precisa de organização: um objetivo, uma missão, uma visão e valores. Para mim, a A9 é o empreendimento mais importante da minha vida.

O que aprendemos ao construí-la:

  • A simplicidade é o máximo da sofisticação. Se uma estrutura precisa de três reuniões para ser entendida, provavelmente esconde um risco que ninguém vê.
  • O preço de entrada é tudo. O retorno se ganha no dia da compra, não no dia da venda. Um bom ativo comprado caro demais continua sendo um mau investimento.
  • A energia vai para a decisão, não para o depois. Por isso toda oportunidade passa pelo mesmo método, o Diamante: Produto, Mercado, Finanças e Pessoas, avaliados juntos antes de mover um único dólar. Quando a decisão é tomada com disciplina, você não vive com medo do que vem depois.
  • Não existem mercados ruins, só estratégias ruins. Todo ciclo tem oportunidades. O que muda é a estrutura com que você entra.

É essa mesma disciplina que aplicamos na Infinity⁹ com as mais de 75 famílias que confiam em nós em mais de 10 países.

Perguntas frequentes

Quanto dinheiro é preciso para ter um family office?

Não há mínimo legal. Como referência, um single family office costuma se justificar a partir de US$ 100 milhões a US$ 250 milhões; abaixo disso, um multi-family office ou um modelo coordenado costuma ser mais eficiente.

Qual a diferença entre um family office e um private bank?

O private bank administra a parte do dinheiro que tem sob custódia. O family office trabalha para a família e coordena o patrimônio inteiro, em todos os países e com todos os assessores.

Family office é só para investimentos?

Não. Também cobre planejamento jurídico e tributário, sucessão, governança familiar, relatórios consolidados e às vezes filantropia.

Uma família brasileira pode ter seu family office em Miami?

Pode, e muitas têm. Miami oferece fuso horário próximo ao do Brasil, voos diretos, acesso ao mercado americano e um ecossistema de advogados e gestores que atendem em português.

Qual o risco tributário de investir nos EUA sem ser residente?

O principal é o imposto sobre herança americano: a isenção para não residentes é de apenas US$ 60.000 sobre ativos nos EUA. No Brasil, entram o Imposto de Renda sobre a renda no exterior e o ITCMD. A estrutura de cada ativo deve ser definida com assessores dos dois países antes de investir.

Aviso: a Infinity⁹ é registrada na SEC como Exempt Reporting Adviser, CRD# 330526. A Infinity⁹ não é escritório de advocacia nem consultoria tributária. Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação jurídica, tributária ou de investimento, nem oferta de valores mobiliários. As regras fiscais do Brasil e dos EUA mudam com frequência; cada família deve consultar seus próprios advogados e contadores nos dois países.

WRITTEN BY

Ahmad Ashrafi is Founder and CEO of Infinity⁹ in Miami and Chief Investment Officer of A9 Family Office. Since 2012 he has managed capital for Latin American families, today more than 75 families across 10 countries. He studied at Babson College, with specializations at Harvard in family office wealth management and at MIT in real estate investment, and is a member of the Forbes Finance Council.

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